sexta-feira, 19 de agosto de 2011
365 tons de cinza por (Rayane Rodrigues da Mota)
Eram 365 tons de cinza. 365 faces tristes. Ela, nem menina, nem mulher. Uma mistura. Híbrida. Triste, sozinha, na dela. Vagava pela cidade com suas roupas sem cor, olhar caído e aparência jogada. Desligada. Há muito havia tornado-se aquilo que era. A vida – para quem não consegue se adaptar às suas oscilações– a fez ficar assim. Ela não tinha vontade de mais nada, acordava com o despertador gritando que mais um dia negro começava. Mais 24 horas cinzas. Tudo cinza. Vida cinza.
Certa vez, numa dessas esquinas obscuras da vida, caminhava uma menina com uma maleta na mão, apertando-a contra seu peito. Ela caminhava segurando a mão de sua mãe, que , sorridente e atenciosa, analisava a rua antes de atravessar com a menina. Olhava para um lado e para o outro, seguia em frente, e a menina, sorrindo, acompanhava rapidamente como se tivesse pressa. Ao lado dela, passou a garota dos 365 tons de cinza com seus fones de ouvido, cabeça baixa, capuz, roupas escuras, tristes e pesadas. A menina não tirou os olhos dela, e a mãe logo percebeu que ela andava devagar, pois estava ficando pra trás. A menina sorridente soltou a mão da mãe, correu até a garota dos 365 tons de cinza, puxou um pedaço de sua blusa para chamar a atenção, colocou sua maleta em suas mãos, sorriu e voltou correndo para a mão da mãe que , olhando para ela, sorriu e fez com a cabeça um sinal de afirmação , de que ela havia feito o certo.
A garota dos 365 tons de cinza tirou os fones já com a maleta em mãos. Não entendia a inusitada situação. Abriu, e viu que ali, existiam várias potinhos com cores, pincéis, lápis, canetas, papéis. Palavras doces, motivadoras, coisas que não ouvia. Nem via. Nem lia. “Não desista dos seus sonhos”, “Sorria para conquistar sorrisos”, “Faça alguém feliz”, “Você tem muitos motivos para ser feliz, basta encontrá-los e valorizá-los”,”Você é linda, acredite nisso”, e frases das mais diversas estavam escritas ali. Ela lia, paralisada e até mesmo chocada por algo tão simples, porém, tão forte. A garota dos 365 tons de cinza, que não era de sorrir, sorriu. Tirou um pincel, escolheu algumas cores e começou a pintar a calçada. Começou a pintar seu caminho. E pintou seus passos. E pintou sua vida. Passou a sorrir constantemente. Passou a viver melhor. A viver bem. A fazer o bem. Passou a ver tudo de forma mais clara. Passou a ser o oposto do que era, por uma simples – porém complexa- atitude de uma pequena menina. A garota já não vivia em 365 tons de cinza. Seus dias passaram a ser coloridos, vívidos, bonitos. E assim, viraram 365 tons de cores. 365 nuances diferentes. 365 contrastes. 365 degradês. Eram, agora, 365 tons de alegria.
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